Cosplay: mas o que é isto?

Por muitos eventos em que participe, por muitas amizades que crie na área, por muito que tente compreender as motivações e os materiais em destaque na mente dos mais apaixonados… eu continuo sem entender a essência do Cosplay! Nem a vontade que move os cosplayers. E informação de qualidade não me falta! Nas várias reportagens que fizemos, contamos com testemunhos de nomes relevantes na comunidade portuguesa, tal como a Leonor Grácias ou a Patrícia Casaca. Mas vou tentar por tudo isto por partes, para que, ao explicar-vos o que é e como acontece, consiga também eu rever a matéria aprendida e atingir o Nirvana (segundo o significado budista, e não na sua referência grunge).

É um hobby. Há que ser compreensivo neste aspecto. No seu tempo livre, o pessoal gosta de andar vestido de personagens fictícias, oriundas da cultura pop japonesa, das bandas desenhadas (manga), do cinema e desenhos animados (animé). E também há as muitas personagens de videojogos com influências americanas e europeias. Como se costuma dizer: “cada maluco com a sua mania”. Eu sei de um indivíduo (aqui o “je”) que não se importa de levantar às cinco da manhã de um domingo, em pleno inverno, para cumprir com o seu hobby. E também sei de outros que se equipam à maneira e gastam euros aos milhares para depois se encherem de lama com um sorriso na cara e a alma satisfeita. Um ponto de partida harmonioso e identificável para este tutorial.

É uma forma de arte. Ora aqui começa a parte em que a porca torce o rabo. A arte forma-se do consenso. E com uma comunidade crescente e tanto trabalho manual aplicado aos fatos, o argumento ganha força. Porque cada fato é único, repleto de imperfeições e toques pessoais. A originalidade tem pouca profundidade, já que os costumes são copiados, mas aplica-se nos métodos e processos para cumprir o seu objectivo. Não tem uma relação directa com propósitos profissionais, nem se ganham rios de dinheiro por ser um bom cosplayer (antes pelo contrário). Por isso, tudo é feito por gosto e vontade própria. Este tema das máscaras daria certamente uma conversa prolongada com um psicólogo, sobre aceitação ou exclusão social, mas sejamos pragmáticos e superficiais. O cosplayer cria e exibe. A audiência aplaude, comenta e opina. Tem fundamentos artísticos e um circuito fechado.

Ver e ser visto. Devido ao tempo exigido para criar os trajes e ao esforço criativo de conjugar materiais, é óbvio que tudo isto se destina a uma exposição na maior quantidade possível – muitas vezes dependente do desconforto causado pelo traje. Uma tarde passada entre cosplayers é sempre brindada pela transmissão de conhecimento, elogios e opiniões. Mas , curiosamente, muitos dos cosplayers que entrevistámos revelaram sempre algum nervosismo. Talvez pela pressão da câmara e do microfone, mas sempre deixam a ideia de que não estão assim tão à vontade com as pessoas visivelmente fora da comunidade. Ou seja, parecem querer mostrar-se enquanto personagens, mas contidos enquanto humanos.

Então, no que ficamos?

Não aquece, nem arrefece. Enquanto hobby todos os cosplayers são livres de o ser e de praticar o Cosplay em paz com a sociedade. Aliás, muitas das pessoas do Cosplay português são malta porreira. Embora existam concursos e eventos dedicados, tanto nacionais como internacionais, não é uma ocupação profissional. Por outro lado, é um hobby dispendioso, como outros.

Não é carne, nem é peixe. No seio da comunidade, o Cosplay é considerado arte, mas por muitas vozes populares são vistos apenas como “miúdos mascarados fora de época”. Bocas à parte, facto é que esta prática reune uma série de valores e técnicas para acontecer. Costura, pintura, conhecimento de inúmeros materiais, design de peças… Criar não é fácil.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Os cosplayers querem mostrar o seu esforço, tal como um produtor agrícola quer que provem a sua fruta. Servem-lhes as selfies, as fotografias com os espectadores curiosos, os blogues e a natural propagação das redes sociais, pois a comunicação social pouco lhes pega.

O Cosplay tem ganho muitos adeptos cá por terras lusas, mas não sai do armário e mantém-se morno. Implica muito trabalho e suor, mas não conquista em pleno o respeito de que está por fora da comunidade. Fica retido num grupo de entusiastas por absorver conceitos de uma cultura evoluida, que exige interpretação e aceitação social. É uma prática estranha, mas que marca a opinião de quem olha. É uma cena deles, que ficam na sua sem chatear os outros.

 

Sobre Daniel Marinho
Daniel Marinho
Fundador da "Multimédia com Todos"; formado em comunicação social e multimédia; fanático da interactividade digital, dos videojogos e da fotografia.
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