Unboxing: a moda dos desempacotados

Na onda dos novos géneros de conteúdos audiovisuais que a internet nos trouxe, os Unboxings são um dos petiscos mais procurados pela audiência da geração Youtube. Vídeos que mostram a abertura de produtos embalados e, idealmente, ainda selados, que revelam ao espectador – potencial comprador ou apenas curioso – o conteúdo constante na embalagem imaculada, tal como é comercializada. Quer dizer… na sua maioria, são produtos disponíveis no mercado e acessíveis a qualquer pessoa, mas também os casos de ofertas especiais ou limitadas, assim como as apetecíveis e invejáveis edições de coleccionador de videojogos.

Para o espectador, o objectivo será não só tomar conhecimento do conteúdo da caixa – saber se traz um cabo adicional ou vem com tal acessório -, mas também absorver um pouco daquele sentimento delicioso de novidade ao abrir uma caixa selada, comparável ao momento de remover a película de protecção do ecrã de um smartphone novo. Se lhe agrada a ideia da compra, mas não tem como, o espectador pode sempre imaginar aquele cheiro dos plásticos de fábrica, de um produto por estrear, e reconfortar-se com a emoção espelhada por um estranho que está, de facto, a viver a emoção. É mais ou menos como ficar lavado em lágrimas no final de um valente drama – não é um problema nosso, mas sentimos compaixão.

Cá pelas nossas tarefas sociais, já nos fartámos de gravar Unboxings – sim, também somos vítimas da moda. Smartphones, tablets, acessórios de informáticas, consolas, um drone, uma impressora… a nossa playlist do Youtube (abaixo) está bem recheada de exemplos. E temos até dois Unboxings improváveis – um foi ponderado, tanto quanto ridiculamente desejado, e revelou-se distinto e engraçado; o outro foi uma consequência sem piada. Afinal de contas, não podíamos deixar escapar a oportunidade de desempacotar uma Bimby, certo?

Muitos são os fabricantes e marcas que se aproveitam das massivas audiências dos Youtubers e outros comunicadores que mantêm a chama da sua fama acesa por via das redes sociais. Os produtos mais apetecidos para estas audiências, jovens na sua maioria, são oriundos do ramo da tecnologia e electrónica de consumo, tais como consolas, computadores, periféricos, smartphones ou tablets. Mas também há casos insólitos e temos a prova disso mais abaixo, seja porque alguma marca facultou determinado produto para este efeito ou porque simplesmente houve um acesso facilitado por qualquer outra via. Para além dos mais famosos, pela internet encontram-se também inúmeros desconhecidos que mostram as suas mais recentes aquisições conforme as desempacotam, com diversos níveis de produção (confesso que sempre considerei os nossos Unboxings como um nível de topo dentro do género).

Hoje, olho para trás e penso no quão idiotas são estes vídeos. “Faz isso que o pessoal curte bué” dizia-me um amigo meu quando comecei, um profissional experiente em Marketing e Tecnologias e Informação. Na altura, em 2102, considerei o seu comentário muito motivador, mas a inutilidade dos resultados obtidos é inevitável. Quem procura informação sobre um produto tem como fontes ideais a página do fabricante, onde são expostas todas as especificações, e as análises feitas por meios de comunicação social e blogues, com opiniões na primeira pessoa sobre a experiência de utilização e outros factores ocultos pela comunicação oficial do fabricante. O desempacotar é apenas o início de uma boa ou má relação. É um momento único, mas não perdura sobre a vida útil do produto.

Mas vou deixar de os criar? Acho que não. Vão deixar de ter visualizações? Também acho que não. Enquanto produtor, é uma excelente oportunidade para ter acesso a uma variedade de produtos que provavelmente não compraria (só preciso de um smartphone, um teclado e um rato de cada vez na minha vida). E acredito que a audiência para este género de conteúdos não vai desaparecer. Não pela questão emotiva, mas pelo provável esclarecimento que acaba por oferecer a um comprador indeciso.

 

Sobre Daniel Marinho
Daniel Marinho
Fundador da "Multimédia com Todos"; formado em comunicação social e multimédia; fanático da interactividade digital, dos videojogos e da fotografia.
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